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Adoção da economia verde é inevitável, diz diretor do Pnuma

A economia verde é inevitável e virá pelo bem ou pelo mal. Pelo bem é a rota dos países que desenharem uma estratégia para chegarem à economia de baixo carbono. A outra via implicará o desenvolvimento de fortes setores destinados a limpar os estragos feitos na natureza no passado. Essa é a opinião de Steven Stone, chefe da divisão de Economia e Comércio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em Genebra.

Stone tem mais de 20 anos de experiência na interface entre economia e ambiente. Trabalhou 13 anos no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), antes de ingressar no Pnuma.

Na Assembleia Ambiental das Nações Unidas (Unea) que acontece nesta semana em Nairóbi, no Quênia, Stone promoveu debates e divulgou estudos sobre energias renováveis e o financiamento à economia verde. Leia trechos da entrevista ao Valor:

Valor: Quando a economia verde vai começar a acontecer?

Steven Stone: A economia verde vai acontecer de um jeito ou outro, ou por design ou por default. Digo isso porque estamos contaminando mais e mais o ar, a água e o solo nas cidades e nas zonas rurais, e isso terá que ser limpo com grande esforço. Purificar a água, limpar o ar, descontaminar o solo, tudo isso é um novo setor da economia, o chamado “setor de bens e serviços ambientais” e vai crescer quanto mais o ambiente for contaminado. Mas esse não é o jeito que queremos que a economia cresça. Podemos mudar o modo que a economia funciona para reduzir os problemas ambientais que criamos pelo caminho, o que seria chegar à economia verde por design. Removendo as políticas fiscais que criam poluição, por exemplo, como os subsídios aos combustíveis fósseis.

Valor: Os recursos existem, mas estão no lugar errado?

Stone: Todos os anos há investimentos sendo feitos, entre 15% e 25% do PIB global, na formação de capital, que é só um jeito de dizer que o dinheiro vem sendo investido em escolas, educação, rodovias, usinas de energia, construções, infraestrutura. A pergunta é: o dinheiro está sendo investido do jeito certo? Está criando economia verde por design ou por default?

Valor: Há um grande volume de subsídios equivocados?

Stone: Sim. Os subsídios aos combustíveis fósseis são próximos a US$ 500 bilhões ao ano. Subsídios à água, outros US$ 30 bilhões a US$ 50 bilhões, principalmente para irrigação e bombeamento de água dos aquíferos para a agricultura. Subsídios diretos à agricultura, como nos EUA ou na União Europeia, são US$ 350 bilhões ao ano. Subsídios para a pesca, entre US$ 20 bilhões e 30 US$ bilhões.

Valor: Para a pesca?

Stone: É para que a frota possa ir pescar mais longe, mais fundo, tirar até o último peixe do oceano. Não é um investimento no estoque de peixes, é um investimento no esforço de pesca. É exatamente a direção oposta para onde deveríamos estar indo porque sabemos que 80% dos estoques pesqueiros globais estão em colapso. É um bom exemplo de dinheiro indo para o lugar errado.

Valor: O que o sr. Acha de uma taxa para o carbono?

Stone: Deveríamos parar de pensar em taxar carbono e pensar em preço do carbono que, neste momento, está muito baixo e não aparece no preço da gasolina ou do diesel. Carros produzem uma quantidade assombrosa de dióxido de carbono. Há uma imagem para ilustrar isso: um carro rodando na rua de vez em quando jogando pela janela um saco com um quilo de carbono. Isso tem um custo para o ambiente, e não está refletido nos preços. Temos que considerar esses custos e ter isso refletido no preço do carbono.

Valor: O que acontece na China?

Stone: O caso chinês é incrível porque o crescimento do país tirou milhões de pessoas da pobreza, o que foi uma tremenda conquista. Mas o que muitos não percebem é que 2/3 da terra arável da China estão contaminados e 60% da água dos rios principais e de aquíferos não são mais potáveis. É por isso que a China está liderando o que se chama, agora, de civilização ecológica. Porque o preço que o crescimento provocou no ambiente é tão grande que impôs um grande custo à economia.

Valor: Há uma mudança de consciência dos economistas?

Stone: Christine Lagarde, a diretora do FMI, está assumindo uma posição de liderança em muitos desses temas. Não porque são questões ambientais, mas porque são questões fiscais e econômicas. Ela se deu conta do custo verdadeiro do carbono para a sociedade e para a economia.

A repórter viajou a convite do Pnuma

Por: Daniela Chiaretti
Fonte: Valor Econômico

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