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Roberto Smeraldi: Corrida contra o aquecimento

A atual conjuntura climática é inédita: os 13 anos deste século estão entre os 14 mais quentes desde que se mede a temperatura de forma sistemática. Da Califórnia, nos EUA, ao Brasil, estiagens inusitadas geram escassez no abastecimento de água, queda na produção agrícola, picos nos preços na energia.

Contabilidade e planejamento –tanto no setor público como no privado– não incorporam tais variáveis como corriqueiras. Mas o que era excepcional se tornou normal e os seguros não protegem a economia dos novos riscos.

Nesta terça-feira (23), chefes de Estado e de governo se reuniram em Nova York, convocados pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para discutir as condições de um acordo sobre mudanças climáticas no fim de 2015, em Paris. Todos reconheceram que está em jogo a segurança global e mostraram preocupação maior que no passado. Mas não surgiu um fato novo que aponte para um avanço no acordo.

Do ponto de vista político, a cúpula tornou claro que o teor das decisões requer presença ativa dos chefes de Estado, como observou o Prêmio Nobel e ex-vice-presidente dos EUA Al Gore, articulador da iniciativa de Ban Ki-moon.

No Brasil, em plena campanha eleitoral, seria importante os candidatos à Presidência explicarem como pretendem enfrentar um tema que já deixou de ser ameaça e se tornou realidade.

Até agora se falava em “mitigar” um fenômeno futuro, enquanto no curto prazo haveria uma “adaptação” às mudanças consideradas inevitáveis. Hoje as duas tarefas se uniram numa só, o desafio da progressiva resiliência da atual civilização.

Na perspectiva econômica, a única maneira de enfrentar a mudança climática é a de precificar o carbono, como agora reconhecem alguns importantes formadores de opinião. Ao precificar o carbono, seja por meio de impostos ou de alocação de cotas, promove-se a inovação e a eficiência.

Essa medida é essencial no Brasil, pois há dois indicadores preocupantes de perda de competitividade. O primeiro é que no último decênio piorou nossa quantidade de energia necessária para produzir uma unidade de PIB, isto é, nossa intensidade energética. O segundo é a piora de nossa intensidade de carbono, ou seja, a emissão de gases estufa por unidade de PIB.

Apesar de nossa intensidade ser ainda relativamente baixa em relação à média global, é sinal de que precisamos reverter a atual tendência. Corretamente, a presidente Dilma Rousseff disse ontem que ao reduzir emissões nos tornamos mais produtivos. Mas as atuais políticas públicas não captam esse conceito.

Na cúpula de Nova York, Al Gore anunciou que virá ao Brasil em novembro para conduzir um inédito e aprofundado treinamento de 800 líderes empresariais, da sociedade civil, da academia e do governo, em uma parceria entre a Oscip Amigos da Terra –que completa 25 anos– e a Climate Reality, ONG liderada pelo próprio Al Gore.

É também uma tentativa do terceiro setor de ir além do convencional papel de alerta e de denúncia –que o caracterizou no século 20– e se refundar, passando a incubar a mudança diretamente nos centros de tomada de decisão.

ROBERTO SMERALDI, 54, jornalista, é diretor da Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e autor do livro “Novo Manual de Negócios Sustentáveis” (Publifolha)

Fonte: Folha de São Paulo

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