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Bancos comunitários revolucionam pequenas comunidades

Já pensou ter uma moeda própria circulando onde você mora ao invés do Real? Isto é possível com a criação dos bancos comunitários. Em novembro, a novidade chegou à Vila de Abrantes, parte do município de Camaçari, localizado na região metropolitana da Grande Salvador, aonde foi inaugurado o primeiro Banco Comunitário do Litoral Norte da Bahia. No lugar do Real, a moeda que passa a circular na região é Abrantes. Este é o oitavo banco comunitário do estado, que até o final de 2014 terá dez bancos.

A iniciativa conta com apoio do Instituto Invepar e da Concessionária Litoral Norte (CLN), empresa da Invepar, e tem como objetivo promover o desenvolvimento econômico local, por meio da criação de uma moeda social e liberação de microcrédito popular para microempreendedores da região. Zilma Ferreira, do Instituto Invepar, ressaltou a relevância de apoiar iniciativas como essa e trabalhar em conjunto. “A parceria nesse projeto foi muito importante, sem ela isso não seria possível”, conta Zilma Ferreira. A Invepar é um dos maiores operadores privados de infraestrutura de transporte da América Latina, com atuação nos segmentos de rodovias, aeroportos e mobilidade urbana e dentre os investimentos e concessões do grupo estão a Linha Amarela e o Metrô no Rio, o Aeroporto de Guarulhos (SP) e a Estrada do Coco e a Linha Verde, administrada pela CLN, que passa junto à região de Camaçari.

O projeto é executado pela Incubadora Tecnológica de Economia Solidária e Gestão do Desenvolvimento Territorial da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (ITES/UFBA), em parceria com o Fórum de Desenvolvimento Sustentável da Costa dos Coqueiro e conta com apoio da Rede de Bancos Comunitários e da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego.

O coordenador da ITES, Genauto Carvalho de França Filho, que participou da articulação de todos os bancos comunitários da Bahia conta que a demanda surgiu da própria comunidade, o que facilita a gestão do banco. “O banco comunitário ajuda no desenvolvimento da própria comunidade na capacidade de auto-organização, mas o sucesso do banco depende muito da sua aceitação no território”, afirma Genauto Carvalho.

Microcrédito

O banco possui um fundo de 10.000 Abrantes e sua política de crédito é dividida em duas linhas: a de consumo e a de produção. Na linha de consumo os valores variam de 50 a 300 Abrantes, com TAC de 10 reais, e o prazo para devolução do dinheiro é de até 5 meses, com parcelas mensais mínimas de R$ 50,00. Já na linha de produção os valores variam de 100 até 1.000 Abrantes, com juros de 3% ao mês.

De acordo com Valquíria Juriti, presidente do Fórum de Desenvolvimento Sustentável da Costa dos Coqueiros e uma das agentes de crédito do banco comunitário uma das grandes vantagens do banco é o fato de não precisar ter carteira de trabalho assinada para conseguir um microcrédito. Entre os pré-requisitos para ser aprovado pelo conselho de avaliação de crédito estão ter mais de 18 anos e comprovar que existe uma fonte de renda que fará com que aquele dinheiro retornar ao banco. No caso do agricultor, um dos pré-requisitos é ele não poder trabalhar com agronegócios.

A agente de crédito conta ainda que a relação de confiança com o cliente é essencial e um dos critérios da avaliação de crédito é conversar com os vizinhos. “O vizinho sempre sabe se a pessoa é confiável e se vai ter condições de pagar”, conta Valquíria.

Personagens locais

A população foi importante no desenho das cédulas que possuem dispositivos de segurança. As notas variam de 50 centavos até dez Abrantes e resgatam a história de Abrantes. Entre os personagens representados na moeda social estão um índio e uma baiana negra (que estão presentes em todas as moedas), o agricultor, o pescador, a lavadeira, etc.

De acordo com Rosângela Tigres da Silva, da Rede de Bancos Comunitários da Bahia, é uma honra ter mais um banco comunitário no estado. Rosangela Tigres também é agente de crédito há seis anos do Banco Comunitário de Matarandiba, em Vera Cruz, e conta que na região já foi possível perceber avanços graças a moeda social. Segunda ela a comunidade teve uma boa aceitação e dos sessenta comércios do local, apenas dois não aceitam a moeda social.

A expectativa é que o mesmo sucesso aconteça em Abrantes. O comerciante Marcos de Oliveira Santana, que administra há cinco anos um restaurante na comunidade, está ansioso para que o dinheiro comece a circular na comunidade. “Há princípio achei estranho. Nós temos sempre medo do novo. Mas acho que essa nova moeda vem para incentivar ainda mais o comércio local”, conta o comerciante.

Além da moeda social e do microcrédito, os moradores terão acesso à assessoria técnica, capacitação, construção de planos de gestão para empreendimentos e diversas iniciativas, desde necessidades básicas do consumo das famílias, como alimentação e remédios, financiamento da produção e prestação de serviço de empreendedores individuais, até as atividades de produção de associações e cooperativas.

O feirante Agostinho Ribeiro que trabalha há mais de 30 anos na feira que acontece aos sábados na comunidade também está otimista. “Já estou vendendo meus produtos em Abrantes. Depois trocarei o dinheiro por real. Mas só vou poder ter certeza que a troca é positiva quando ver o resultado”, conta Agostinho.

A estudante Débora Dourado foi uma das primeiras a utilizar a nova moeda para comprar produtos na barraca do Agostinho Ribeiro. “Achei a moeda bem bonita e um atrativo a mais”, conta.

O banco funciona no posto avançado da Prefeitura de Camaçari de segunda a sexta-feira das 8h às 16h. Aos sábados ele será aberto apenas quando houver eventos especiais como feiras, palestras e oficinas.

O projeto foi selecionado no primeiro edital de seleção do Instituto Invepar, em 2013, e sua implementação começou em setembro do ano passado. A iniciativa também foi selecionada no segundo edital da instituição, em 2014. Ao todo serão beneficiados 31 projetos, no referido edital, dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

(*) A repórter viajou a convite da Invepar.

Por: Isabella Araripe
Fonte: Plurale 

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