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Conselheiro deve considerar economia de baixo carbono

Incorporar diretrizes de sustentabilidade às pautas dos conselhos de administração das empresas nem sempre é uma tarefa fácil. O mineiro José Luciano Penido que o diga – assumiu o conselho de administração da Fibria em 2009, quando houve a fusão entre as empresas Votorantim Celulose e Papel, na qual era presidente-executivo, e Aracruz Celulose, dando origem à nova companhia.

A empresa que surgia tinha uma dura lição de casa a ser feita: apaziguar os conflitos envolvendo povos indígenas, comunidades quilombolas e membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no entorno das fábricas e áreas de cultivo de eucalipto da empresa.

A rejeição à companhia era grande e ocupava boa parte do noticiário: em 2006, um grupo de mulheres ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra havia invadido o horto florestal da então Aracruz e destruído laboratórios da empresa. Lideranças indígenas no Estado do Espírito Santo também acusavam a empresa de roubo de terras.

Logo que assumiu seu posto de chairman, Penido então sugeriu aos membros do conselho de administração da Fibria que fizessem as malas. Do Rio Grande do Sul à Bahia, passando pelo Espírito Santo, os conselheiros foram conhecer de perto as principais regiões de conflito envolvendo a empresa, prática que se repete há sete anos.

A experiência, segundo ele, aproxima os membros da realidade da companhia e ajuda na tomada de decisões estratégicas. “De modo geral, as empresas não têm o costume de levar seus conselheiros para ver o chão de fábrica, mas ter essa visão é muito importante, sobretudo nas situações e momentos de crise”, afirma Penido.

A estratégia de Penido de fazer com que os aspectos de sustentabilidade fossem incorporados ao Código de Conduta da empresa desde seu início incluiu também trazer as partes interessadas para o Comitê de Sustentabilidade da companhia, que tem, entre seus membros, lideranças indígenas, ambientalistas e acadêmicos.

Ao longo dos últimos anos, os conflitos foram sendo mitigados e deram lugar a mais de 30 projetos que aproximaram a empresa das comunidades, com ênfase em empregabilidade e geração de renda.

As metas da empresa para o longo prazo também dialogam com a área de sustentabilidade. Algumas delas são aumentar a produtividade em 50% utilizando as mesmas áreas plantadas até 2025 e duplicar a absorção de carbono da atmosfera no mesmo período. “Um dos papéis de um conselho de administração é vislumbrar oportunidades que sejam estratégicas num cenário de economia de zero carbono”, diz Penido.

O contexto das mudanças climáticas é um fator que deve influenciar as companhias em relação a estratégias de longo prazo mais voltadas à sustentabilidade. A elaboração do recente acordo climático global firmado no âmbito da CoP-21, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada no final de 2015, teve ampla participação do setor privado. Grandes investidores institucionais, como fundos de pensão europeus, já estão retirando investimentos de empresas com alta pegada de carbono, como o setor de carvão mineral.

“As externalidades ambientais ligadas a um negócio estão cada vez mais entrando nas decisões de investimentos, e caberá aos conselhos de administração entender esse contexto para ajudar as companhias a tomar as decisões mais estratégicas”, diz Carlos Eduardo Lessa Brandão, consultor especializado em governança e sustentabilidade.

No Brasil, um dos termômetros de como sustentabilidade e governança podem caminhar juntas é o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBovespa, carteira de ações em atividade desde 2005 que reúne as empresas com melhor pontuação nos quesitos ESG (sigla em inglês para meio ambiente, social e governança).

Ao longo dos últimos dez anos, desde sua entrada em operação, o índice vem mostrando a evolução das empresas de capital aberto brasileiras em seis dimensões (natureza do produto; governança corporativa; econômico-financeira; ambiental, social e mudanças climáticas).

No quesito governança corporativa, as empresas que fazem parte do ISE avançaram na prestação de informações: em 2005, 54% das companhias mostravam bom desempenho em prestar informações sobre sua governança; em 2015, esse número saltou para 75%, o que indica maior maturidade em relação ao tema, explica Aron Belinky, coordenador do programa Desempenho e Transparência do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVCes).

As empresas listadas no ISE, porém, representam uma amostra acima da média das empresas brasileiras quando o assunto é sustentabilidade, e seus parâmetros não podem ser extrapolados para um universo mais abrangente do empresariado nacional.

“Nem toda empresa com boa governança tem a sustentabilidade incorporada na sua gestão. Mas dificilmente um empresa terá uma boa política de sustentabilidade se não tiver uma boa governança”, diz Belinky, O GVCes é responsável pela elaboração do questionário que é submetido às companhias para que possam ser avaliadas na composição do índice.

Por: Andrea Vialli
Fonte: Valor Econômico

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