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Parar para pensar no clima

A cada novo estudo, aumenta a preocupação.  Agora, é do Centro de Monitoramento de Alerta de Desastres Naturais, do Ministério de Ciência e Tecnologia, em parceria com a embaixada britânica no Brasil e coordenado pelo respeitado cientista Carlos Nobre, do Inpe e da Capes: há um risco de 30% de a temperatura no Brasil subir mais de 4 graus Celsius ainda neste século; se concretizado, levaria a perdas em áreas destinadas ao cultivo de produtos como feijão, arroz, milho e soja.  Também para a saúde o impacto seria desastroso, com aumento dos índices de mortalidade por doenças cardíacas.  Da mesma forma, criar-se-iam condições muito mais favoráveis para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, vetor de doenças como dengue, zika e chikungunya.  Segundo Nobre, “30% não é uma probabilidade pequena; e, mesmo se fosse, é preciso considerá-la, pois os impactos podem ser muito fortes”.

O aumento pode acontecer até mais cedo – a chance é de 60% para elevação de 4 graus antes de 2060. Nesse caso, o risco para a queda de produção no feijão seria de 57%; ele ficaria confinado aos Estados da região Sul e parte de Minas Gerais. A soja perderia 81% da produção em áreas de baixo risco e ficaria limitada ao norte de Mato Grosso – para onde já está migrando parte da produção.

Para a saúde, o problema maior é o estresse pelo calor, com máximas contínuas acima de 37 graus e a dificuldade de o corpo humano eliminar esse calor. O problema seria maior nas Regiões Centro-Oeste e Norte, além do Piauí e Maranhão. Para os idosos, o risco seria muito mais alto ainda (O Globo, 2/3).

Outros ângulos da questão aparecem na revista britânica sobre saúde The Lancet, segundo a qual até 2050 mudanças climáticas poderão tirar a vida de mais de 500 mil adultos em 155 países com a redução de produtividade em culturas agrícolas. Esses fatores aumentam a incidência de doenças não transmissíveis (cardíacas, acidentes vasculares, câncer e outras), diz o estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Por causa de mudanças nas dietas e no peso corporal, baixo consumo de frutas e verduras, assim como alto consumo de carne vermelha e ganho de peso corporal serão decisivos.

Mas não estamos no Brasil livres de problemas com o clima – ao contrário. Estudo do brasileiro Augusto Getirana para a Nasa e a Sociedade Americana de Meteorologia concluiu, com base em observações por satélites, que o Sudeste brasileiro perde 56 trilhões de litros de água em um ano – equivalentes, em 12 meses, à água em duas represas de Itaipu ou em 43 sistemas Cantareira, o principal reservatório da região metropolitana de São Paulo. No Nordeste, a perda é de 49 trilhões de litros de água – e é nessas duas regiões que aconteceu em 2015 a pior seca desde 1980, segundo a Nasa (a Sabesp, com informações desde a década de 1930, afirma que foi a pior temporada por falta de chuvas em 83 anos). O estudo das causas inclui as mudanças climáticas e o desmatamento na Amazônia.

O Brasil, afirma o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases do Efeito Estufa, tem dois biomas – Caatinga e Amazônia – na “lista negra do clima”. No Semiárido, além de o ecossistema ser mais sensível à variação do clima, a pobreza aumenta os riscos (Observatório do Clima, 17/2). “É como se os dois biomas em depressão e suas plantas deixassem de funcionar bem.

No bioma amazônico, conclui um livro divulgado pelo Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam), o desmatatamento nos assentamentos ocorre de forma concentrada: poucos respondem pela maior parte do desmatamento nessa categoria fundiária. Em 2014, apenas 58 assentamentos (2,6% dos 2.217 georreferenciados no bioma) responderam por 50% da “subtração florestal registrada” (Ipam, 1/3). E a causa principal nesse caminho é a implantação de pastos na expansão da pecuária. A Amazônia tem ainda outras preocupações. Em 2015, por exemplo, Roraima viveu a pior seca em 18 anos. E mais: seis das 18 hidrelétricas que o governo federal implantou, está instalando ou planeja fazê-lo poderão emitir níveis de gases poluentes que afetam o clima equivalentes aos de usinas alimentadas por combustíveis fósseis – diz a revista norte-americana Environmental Research Letters (MST, 12/1).

Mais um estudo, da Oficina de Textos (18/2), traz de volta a questão das “ilhas de calor” nas grandes cidades, “oásis inversos”, onde o ar e as temperaturas são mais quentes que na superfície das áreas rurais circundantes – porque materiais comuns de construção (impermeáveis e estanques) absorvem e retêm mais calor que os materiais naturais nas regiões mais próximas. A isso se junta a combinação de materiais escuros de edifícios e pavimentos, onde a configuração do tipo “canion” absorve e armazena mais energia solar. A temperatura nas superfícies secas e escuras pode chegar a 88 graus Celsius durante o dia, enquanto nas superfícies com vegetação e solo úmido ela pode ficar em 18 graus. O calor gerado pelas atividades humanas, menor velocidade do vento e poluição do ar contribuem para a formação das ilhas de calor, que atraem chuvas mais pesadas e exigem mais consumo de energia.

São fenômenos conhecidos há décadas, que influenciam as mudanças do clima e exigem a adequação das políticas. Mas quase nada é feito. Por isso, é preciso ver com atenção quais poderão ser as graves consequências.

Washington Novaes é jornalista.
Fonte: O Popular

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