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Aquecimento global: o desafio é ainda maior

Um recente estudo feito sob a égide do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas, o IPCC, publicado na revista Nature, atualizou as correlações entre volumes de emissões de gases efeito estufa (GEE) e aumentos de temperatura média do planeta, até o fim do século. Num cenário de inércia absoluta, ao gosto dos negacionistas climáticos, o aumento seria de entre 4,1 e 5,6 graus. Num cenário de mera continuidade das políticas atuais, teríamos entre 3,2 e 4,4 graus. Se todos os países cumprirem rigorosamente os compromissos voluntários (os chamados INDC) assumidos ano passado no Acordo de Paris, ficaríamos entre 2,9 e 3,8 graus.

Hoje assistimos às consequências do aumento de pouco menos de um grau já registrado desde o início da era industrial: derretimento acelerado de geleiras; enchentes, furacões e secas mais frequentes e intensas; impactos devastadores sobre a agricultura, como a estiagem de quatro anos que precedeu a guerra civil Síria; elevação do nível dos oceanos; migração de epidemias etc. Agora imaginemos um futuro, ainda no período de vida de nossos filhos e netos, com esses cenários apresentados na Nature.

A simples progressão aritmética é francamente assustadora, mesmo sem incorporar riscos exponenciais retroalimentadores ainda mal estudados: a liberação massiva do metano do Ártico, do permafrost siberiano e do fundo dos oceanos e a redução da capacidade de absorção de CO2 provocada pela acidificação dos mesmos e pelo deterioramento das florestas tropicais.

O estudo também permite vislumbrar uma estreita janela de oportunidades de aproximadamente 15 anos: um processo de revisões quinquenais dos INDC, pelo qual ainda seria possível conter o aumento da temperatura média do planeta abaixo dos 2 graus, que para os cientistas separa as consequências graves das simplesmente catastróficas.

Permanecer abaixo dos 2 graus depende do advento de uma economia global carbono neutra, por volta de 2075, na qual o emitido e o retirado da atmosfera se equivalham. Isso pressupõe, entre outras coisas, o abandono do carvão em um prazo relativamente curto e do petróleo mais adiante. Demandará energias limpas e renováveis com grande otimização de sua eficiência; a eletrificação dos transportes ou sua “hibridização” com uso de biocombustíveis; técnicas massivas de captura e sequestro de carbono; desmatamento zero; gigantescos projetos de reflorestamento; e uma agricultura e uma pecuária de alta produtividade e baixo carbono. Trata-se de uma verdadeira revolução tecnológica e cultural que precisará de investimentos gigantescos. Por outro lado, ela deve aportar implicações globais econômicas e sociais bastante positivas.

Há uma convergência de caminhos entre a transição para economias de baixo carbono e uma superação da chamada “financeirização” que, segundo recente matéria de capa da conservadora revista Time, está estagnando a economia global. A transição para economias de baixo carbono pressupõe investimentos de aproximadamente US$ 3 trilhões por ano, algo muito além dos US$ 100 bilhões em torno dos quais tanto se polemiza nas Conferências do Clima da UNFCCC. Os governos, praticamente todos com deficit e forte endividamento, não conseguem aportar esses trilhões, embora possam mobilizar garantias e criar instrumentos de pressão para eventualmente drenar uma parte dos US$ 220 trilhões que hoje circulam no sistema financeiro global. Um esforço envolvendo um grupo pioneiro de governos, bancos centrais, bancos de investimento e agências multilaterais, sob a égide do G-20, numa espécie de “Bretton Woods do baixo carbono”, poderá consagrar novos mecanismos para atender essa necessidade histórica e premente da humanidade.

Nos âmbitos nacionais, torna-se urgente a taxação do carbono, cujo efeito será incorporar ao preço dos produtos e serviços carbono intensivos suas “externalidades”, ou seja, os custos reais de danos sociais e econômicos, hoje escamoteados. Essa taxação deve ser instituída suprimindo outros tributos sobre trabalho e investimento.

É preciso também redirecionar quase US$ 1 trilhão de subsídios a combustíveis fósseis. Outra ferramenta é a chamada “precificação positiva”, baseada no parágrafo 108 da Decisão de Paris, que reconhece o valor social e econômico da redução/remoção de carbono. Ela permitirá aportar liquidez às economias produtivas de baixo carbono, via “certificados de redução/remoção de emissões”, uma espécie “moeda do clima”.

Alfredo Sirkis – Escritor, jornalista e diretor do Centro Brasil no Clima/Climate Reality

Fonte: Correio Braziliense

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