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Ainda preocupados, porém menos aflitos

No momento em que estas linhas são escritas, proliferam na comunicação, em toda parte, notícias, estudos diplomáticos e jornalísticos sobre a iminência da decisão dos Estados Unidos de se retirarem do Acordo de Paris e de outras negociações em torno de mudanças climáticas, assim como de redução de emissões atmosféricas, que podem acentuá-las, principalmente as de derivados do petróleo. O acordo, aceito por 195 países, estabelece metas para as reduções na emissão de dióxido de carbono. O Acordo do Clima, ratificado por 147 países, não foi referendado pela Síria (por causa da guerra) e pela Nicarágua (que apontava o risco de prejudicar sua economia).

Enquanto ambientalistas e outros setores pressionam em sentido contrário – argumentado que os danos já provocados por essas emissões são graves e aumentarão muito ao longo do tempo –, os chamados “negacionistas” insistem em que não há provas confiáveis dos riscos do clima, seja para o ambiente, seja para as pessoas. Mais ainda há poucos dias mais de 200 mil pessoas caminharam pelas ruas de Washington, a capital norte-americana, exigindo mais empregos, mais justiça e mais ação para conter as mudanças climáticas – no que foram acompanhadas por muitas dezenas de milhares de outras pessoas em várias partes do mundo, com as mesmas postulações.

No início de maio (7/5) o Estado reproduziu artigo do jornal The New York Times com a informação de que mais de 53 mil quilômetros de estradas mais ao norte do Canadá estão “congelando mais tarde e derretendo mais cedo”, a economia local já está “ameaçada”, pois terá de mudar sistemas de transporte. E completou: “As autoridades canadenses afirmam que o aquecimento global está causando uma série de problemas, do derretimento do gelo nos oceanos à diminuição do ‘permafrost’ nos territórios do noroeste”, que “está aquecendo de quatro a cinco vezes mais rápido do que a média global”. As camadas de gelo nas estradas exigem adequação do transporte ao que está sendo observado nos novos tempos. Há forte pressão sobre os governos para as readequações necessárias.

Na verdade, desde 2015, por ocasião da COP 21, que selou o Acordo de Paris, líderes do G-7 assinaram uma declaração que afirmava que “as mudanças climáticas são um dos maiores desafios do nosso tempo (…). São inequivocamente o maior desafio da humanidade no século 21 (…). O tratado definiu o objetivo de limitar o aquecimento global abaixo dos 2 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais – até o fim deste século – e empreender esforços para que o aumento não ultrapasse 1,5 grau; mas em 2016, o ano mais quente já registrado, ultrapassamos 1 grau Celsius de elevação da temperatura média da Terra. Acima de 1,5 grau, a elevação potencial do nível do mar põe em grave risco a sobrevivência de nações inteiras, como pequenas ilhas do Pacífico. Mas somadas todas as metas de cortes de emissões de gases do efeito estufa assumidas pelos países se chegaria a pelo menos 3 graus Celsius em 2100” (Plurale, 15/5).

O quinto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC-2) conclui que temos “uma oportunidade histórica de promover o crescimento ‘inclusivo’, até mesmo eliminar a pobreza e reduzir as mudanças climáticas (…). São necessárias mudanças nas formas como construímos nossas cidades, produzimos e usamos energia, transportamos pessoas e bens”. A tarefa exige mudança radical no rumo dos investimentos globais em infraestrutura tradicional (energia, transportes, construções, água, saneamento, etc.) e infraestrutura natural (paisagens florestais, zonas úmidas, proteção de bacias hidrográficas). Serão necessários, segundo a comissão, investimentos de US$ 90 trilhões em 15 anos; e dois terços teriam de ser em países em desenvolvimento.

Mas é possível, segundo o autor. Só o lobby dos combustíveis fósseis – exploração de carvão mineral, petróleo e gás natural – e o gasto anual com esses mesmos combustíveis fósseis para proteger as principais rotas de exploração consomem US$ 80 bilhões.

Na reunião de maio último, as nações do Acordo do Clima definiram a próxima reunião da COP 23 para novembro deste ano. Nas discussões entraram em cena informações importantes para o encontro de novembro: usinas de gás natural liberam de 21 a 120 vezes mais metano do que informavam estimativas anteriores; as emissões em refinarias de petróleo são de 11 a 90 vezes maiores que as “estimativas iniciais”; o gás natural, conhecido como alternativa mais limpa e favorável ao clima para a queima de carvão, é obtido, principalmente nos Estados Unidos, por meio do controverso método conhecido como fraturamento hidráulico – muito combatido por cientistas e ambientalistas (não-fracking Brasil. 8/4/2017).

Outra informação importante veio da meteorologista Graziella Gonçalves, da Somar, segundo quem, “como todos os modelos climáticos, que trazem perspectivas de um futuro distantes, os mapas usados para analisar a ocorrência do El Niño no segundo semestre de 2017 ainda não são conclusivos”; de qualquer forma, ainda se discute a possibilidade superior a 50% de haver El Niño. Pode até, se acontecer, trazer chuvas mais volumosas perto do Uruguai em outubro; “mas não terá intensidade igual à de 2015-2016”; e diminuiu a possibilidade de geadas no Sul do País. No Sudeste e Centro-Oeste, as chuvas ficarão irregulares e pode haver estiagens regionalizadas. E no Nordeste não haverá condição para uma seca tão forte como as de 2015 e 2016.

Portanto, no horizonte mais próximo parece não haver ameaça mais forte do clima. Em prazo maior, entretanto, prevalece a sugestão de cautela de muitos cientistas. E numa hora destas, de possibilidades drásticas, não se deveria cogitar de romper com o Acordo do Clima.

Por: Washington Novaes, jornalista
Fonte: O Estado de S. Paulo

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