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Água também se planta

Experiências desenvolvidas pelo país mostram que é possível ressucitar nascentes e córregos vítimas de degradação ambiental

A má notícia: agressões ao ambiente natural, como desmatamento, são prejudiciais à manutenção da oferta de água. A conversão de áreas de vegetação nativa para atividades econômicas, como a agricultura, é inimiga da preservação das fontes hídricas.

A boa notícia: é possível recuperar as áreas degradadas e “plantar” água.

A Agência Nacional de Águas (ANA) faz isso há 10 anos. Na verdade, não exatamente a agência, mas agricultores, nas diferentes regiões do país, por meio de um programa batizado de “Produtor de Água”, implementado pela agência.

Os objetivos do programa são reduzir a erosão e o assoreamento dos mananciais nas áreas rurais. O programa é de adesão voluntária e prevê apoio técnico e financeiro à execução de ações de conservação da água e do solo, como a construção de terraços e de bacias de infiltração, a readequação de estradas vicinais, a recuperação e proteção de nascentes, o reflorestamento de áreas de proteção permanente e de reservas legais e saneamento ambiental, entre outras.

O programa ainda prevê o pagamento de incentivos (ou uma espécie de compensação financeira) aos produtores rurais que comprovadamente contribuem para a proteção e recuperação de mananciais.

39387055“Com certeza, é possível plantar água”, garante o coordenador de Implementação de Projetos Indutores da ANA, Devanir Garcia dos Santos. Os resultados podem ser conferidos, por exemplo, no município de Extrema, em Minas Gerais, na bacia do Rio Jaguarí, que contribui para o sistema Cantareira, em São Paulo. Segundo Devanir, na seca de 2014 e 2015, as nascentes localizada em áreas recuperadas por meio do programa na bacia tiveram redução de vazão de 40% em média. Já as que estavam fora da área de ação do programa secaram completamente.

As técnicas utilizadas no programa desenvolvido pela ANA encontram comprovação também numa fazenda que é exemplo em recuperação florestal. Fica no sul da Bahia e pertence a um cientista suíço transmutado em agricultor orgânico no Brasil, onde chegou há 34 anos. Ernst Gotsch, 68 anos, adquire, em 1984, uma propriedade com o nome de “Fazenda Fugidos da Terra Seca”. Eram 500 hectares de terras improdutivas, degradadas pela extração de madeira e por práticas agrícolas inadequadas, incluindo o uso de fogo para a formação de pastagens.

Nas mãos de Ernst, a fazenda mudou radicalmente. Em lugar de extrair madeira, o suíço passou a plantá-la junto com dezenas de outras espécies, em sistemas agroflorestais, que conjugam, no mesmo espaço, desde espécies de ciclo curto, como mandioca e milho, até espécies perenes, como árvores frutíferas, tudo sem o uso de insumos químicos.

Hoje, a antiga Fugidos da Terra Seca é uma área altamente produtiva, com 410 hectares de área reflorestada, 350 deles transformados em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), além de 120 hectares de reserva legal. Com esse novo tratamento, a natureza respondeu: 14 nascentes ressurgiram e a fazenda trocou de nome – passou a se chamar “Olhos d”Água”.

A agrônoma Fabiana Peneireiro usou o caso de Gotsh em sua tese de mestrado. “Conheci a fazenda em 1995. Havia três córregos. Hoje, são 17”, conta. “As áreas com cobertura florestal conformam um solo mais poroso, melhorando sua produtividade, infiltrando mais água e alimentando o lençol freático”, explica.

Por: Warner Bento Filho
Fonte: Correio Braziliense

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