Adaptação da Grande Barreira de Coral ao aquecimento global será ineficaz diante de um aumento de 0,5ºC na temperatura do planeta. Monumento natural corre grande risco, uma vez que projeções indicam elevação entre 2ºC e 4ºC até 2100
Um dos mais belos patrimônios naturais da humanidade, a Grande Barreira de Coral pode não sobreviver à pressão imposta pelo aquecimento do planeta. Nos últimos anos, constatou-se que esse paredão composto por quase 3 mil recifes e 300 atóis estava conseguindo driblar o aumento de temperatura por meio de um mecanismo de adaptação. Contudo, uma nova pesquisa publicada na revista Science indica que, diante dos cenários futuros de mudanças climáticas, isso não será suficiente para impedir o colapso do maior recife de corais da Terra.
De acordo com pesquisadores do Centro de Excelência de Estudos de Recifes de Coral (Coral CoE) da Universidade James Cook e da Universidade de Queensland, além da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOOA), os cenários futuros das mudanças climáticas são incompatíveis com a preservação dos recifes. Um aumento de apenas 0,5ºC pode fazer com que os corais percam a capacidade de se defender, afirmam. Nos últimos 100 anos, o planeta ficou 1ºC mais quente, sendo que, em algumas localidades, esse aumento foi de 3ºC. Modelos preveem que, em 2100, a temperatura da Terra esteja entre 2º e 4ºC acima dos níveis pré-industriais.
O oceanógrafo Scott F. Heron, da NOOA, explica que corais têm uma relação simbiótica com algas microscópicas chamadas Zooxanthellae. São elas que conferem as cores a esses animais cnidários. As algas também são a fonte principal de alimento dos corais. “Quando a água está muito quente, o coral expele a alga. Com isso, ele fica completamente branco, um processo que chamamos de branqueamento de corais. O coral desbotado não está morto, mas pode morrer porque, nesse estágio, ele se encontra sob forte estresse”, explica. Caso a temperatura volte ao normal, ele se recupera.
A principal autora do artigo, Tracy Ainsworth, do Coral CoE, compara o mecanismo de branqueamento a uma “maratona”. De acordo com ela, semanas antes de perder a cor, à medida que a temperatura começa a subir, o coral vai se preparando para expulsar as algas e, com isso, torna-se mais tolerante ao estresse na hora em que, de fato, desbota. Esse período de “pré-maratona” induz respostas ao choque térmico que o ajudam a tolerar o aumento de temperatura e foi observado em três quartos dos eventos estressantes aos quais os corais da Grande Barreira estiveram expostos nas últimas três décadas. Contudo, os cientistas observaram que, no início do ano, alguns cnidários da região não passaram pela fase de preparação. “Sem estarem preparados para o estresse, os danos sofridos por eles serão imensos”, diz Ainsworth.
Mais estudos
Os modelos desenvolvidos pelos pesquisadores indicaram que, com um aumento na temperatura global de 0,5°C, o aquecimento oceânico não será mais gradativo, e as ondas de calor ocorrerão de forma mais frequente. “Assim, a fase de “pré-maratona” não acontecerá mais, e os corais não terão tempo para se preparar. No lugar disso, serão expostos diretamente aos eventos estressantes”, afirma a bióloga. “O risco de mortalidade será extremamente alto”, alerta.
Em nota, Peter Mumby, também do Coral CoE e coautor do trabalho, afirma que não há outra alternativa, senão cortar as emissões de CO2 da atmosfera. Ele destaca a necessidade de mais estudos para verificar formas de, ao menos, tentar minimizar a pressão sobre os recifes.
“Saber quais padrões de temperatura estão presentes sobre diferentes corais, como isso impactará a sobrevivência dos corais e qual a capacidade de eles se recuperarem, além da velocidade em que mudanças no padrão ocorrerem, poderão ajudar no manejo dos recifes. Esse conhecimento ajudará a aumentar a probabilidade de sobrevivência dos corais, reduzindo o impacto de outros fatores estressantes, como poluição em escala local e regional”, analisa. “Nossos resultados, no entanto, destacam, mais uma vez, a importância de uma ação global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Ainda poderemos ter esses lindos corais se as pessoas estiverem dispostas a mudar seu comportamento.”
“Quando a água está muito quente, o coral expele a alga. Com isso, ele fica completamente branco. O coral desbotado não está morto, mas pode morrer porque, nesse estágio, ele se encontra sob forte estresse”
Scott F. Heron, oceanógrafo
Acidificação também atrapalha crescimento
Além das ameaças provocadas pelo aumento da temperatura do mar, os corais australianos sofrem com a acidificação resultante das emissões de dióxido de carbono na atmosfera. Uma das consequências desse processo movido pela ação humana é que o crescimento dos recifes está mais lento, segundo um estudo da Universidade de Sydney, publicado recentemente na revista Nature.
Estima-se que 40% do dióxido de carbono liberado na atmosfera proveniente de atividades antropogênicas – incluindo a queima de combustíveis fósseis – sejam absorvidos pelo oceano. Com isso, a química da água do mar torna-se mais ácida e corrosiva aos recifes, às ostras e ao restante da vida marinha. Esse processo é conhecido como acidificação oceânica.
Os corais são particularmente vulneráveis porque a arquitetura dos recifes se baseia na acreção de carbonato de cálcio, a calcificação, um mecanismo que se torna cada vez mais difícil à medida que as concentrações de substâncias ácidas aumentam e o pH das águas cai. A situação é tão grave que alguns cientistas acreditam que, se não freado, o processo poderá levar à dissolução dos corais ainda neste século.
Manipulação
No experimento da Universidade de Sydney, os pesquisadores manipularam a composição química da água oceânica, simulando as condições da era pré-industrial, baseados na estimativa de concentração do dióxido de carbono atmosférico daquela época. O teste foi feito em uma estação de estudos em One Tree Island, uma ilha do Pacífico localizada na Grande Barreira de Coral. Os cientistas mediram a calcificação dos corais em resposta ao aumento do pH e descobriram que, antes da era da industrialização, a taxa de acreção de carbonato de cálcio era mais alta que hoje.
Rebecca Albright, que liderou o estudo, lembra que trabalhos anteriores demonstraram declínios em larga escala nos recifes de corais ao longo das últimas décadas. Um estudo de um dos coautores do artigo publicado na Nature, por exemplo, constatou que as taxas de calcificação estavam 40% mais baixas em 2008 e 2009, comparado às mesmas estações de 1975 e 1976. Contudo, Albright destaca que não tem sido fácil apontar quanto do declínio se deve à acidificação e quanto foi causado por outro estressante antropogênico, como o aquecimento, a poluição e a pesca excessiva.
“Nosso trabalho é o primeiro a fornecer fortes evidências, a partir de experimentos em um ecossistema natural, de que a acidificação oceânica já está fazendo com que os corais cresçam mais lentamente do que faziam há 100 anos”, diz a bióloga. “A acidificação oceânica está interferindo nas comunidades de recifes. Não é mais um medo do que pode acontecer no futuro; é uma realidade hoje”, diz. (PO)
40%
Índice do dióxido de carbono lançado pelo homem na atmosfera que acaba absorvido pelo oceano
Fonte: Correio Braziliense






