O entorno do Maracanã, templo do futebol e palco das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016, na capital carioca, é reduto de uma prática não condizente com a celebração do esporte: o abandono de animais domésticos pela população. No local, cinco colônias de gatos de rua – cerca de 130 animais no total – eram alimentadas e cuidadas voluntariamente por um grupo de mulheres do bairro, até que o preparativo para a operação do evento global, com intenso fluxo de veículos e pessoas, acendeu o sinal de alerta. Houve registros de incidentes e, para evitar maiores riscos, foi necessário instalar um gatil dentro do Estádio de Atletismo Célio de Barros, naquele histórico complexo esportivo. O objetivo: oferecer isolamento e melhor tratamento aos animais resgatados.
Longe dali, à beira da Lagoa de Marapendi, no centro de uma sensível Área de Proteção Ambiental, na Barra da Tijuca, a preocupação recaiu sobre jacarés e capivaras impactados pela construção do campo de golfe, uma modalidade esportiva que voltou à Olimpíada após 112 anos de ausência. Além da instalação de cercas, biólogos foram acionados para quantificar e monitorar a fauna silvestre de modo a conservar o equilíbrio ecológico, inclusive porque a reserva teve parte da vegetação nativa recuperada e será aberta ao público após a realização do evento.
Nas ruas ou no ambiente natural, as iniciativas contra danos à vida animal resultaram do processo de treinamento e adoção de boas práticas associado à certificação do Comitê Rio 2016 pelas normas ISO 20.121, voltadas à gestão de sustentabilidade em eventos. “Quando assumimos o Maracanã para a organização dos Jogos, não havia qualquer preocupação com a convivência entre os moradores e a arena”, afirma Tânia Braga, gerente geral de sustentabilidade do Comitê Rio 2016. O cuidado com gatos sem dono pode parecer pouco se comparado ao tamanho dos riscos – e também oportunidades – socioambientais relacionados a um megaevento, mas demonstra “uma mudança de cultura, com quebra de barreiras e mitos” em torno do negócio.
A certificação atesta como a sustentabilidade se integra à organização do evento desde o planejamento inicial, não como um simples adereço, mas como parte do processo de gestão envolvendo do alto ao baixo escalão. “É o fermento do bolo, não a cerejinha no toque final”, ilustra Braga. O sistema exige consultas prévias à sociedade civil.
No segundo momento, a auditoria confere a adoção e a abrangência de práticas que vão do controle das emissões de carbono ao uso de recursos naturais e medidas de inclusão social. É também aferida a existência de planos de ação e monitoramento. No ano passado, o resultado prático da gestão foi auditado durante um evento-teste, e agora, durante a realização dos Jogos, será alvo de um novo processo: a “recertificação”, que confirma o selo.
O centro das atenções está nas instalações temporárias e na operação do evento – não nas obras públicas. Ao todo são 32 estruturas de competição olímpicas e 21 paralímpicas, além de 117 locais de apoio, com planos de gestão ambiental elaborados a partir de treinamentos on-line e presenciais. Na operação, são priorizados contratos com empresas nacionais (76% do investimento) e a totalidade dos recursos tem origem privada.
“As iniciativas lançam sementes para uma mudança de mentalidade nas compras, em que atributos de sustentabilidade devem ser considerados para além dos preços”, ressalta a gerente.
Na área ambiental, foram adotadas medidas para compensação do equivalente a 2 milhões de toneladas de dióxido de carbono, emitidos pelos Jogos Olímpicos. Exigiu-se selo socioambiental para a madeira das instalações e móveis e, conforme o planejamento, 3,5 mil toneladas de resíduos gerados durante o evento deverão ser coletados e reciclados por 33 cooperativas de catadores. Até dezembro de 2015, durante a organização, foram recicladas 350 mil toneladas de materiais, produzidas principalmente nos centros de logística.
“A certificação representa um avanço, mas não é suficiente”, pondera Luciana Stocco Betiol, pesquisadora no tema de produção e consumo sustentável e professora do Centro de Administração Pública e Governo, da Fundação Getúlio Vargas. Para a especialista, coautora do livro “Compras Sustentáveis e Grandes Eventos”, lançado em 2015, seria preciso considerar os impactos antes, durante e após os Jogos Rio 2016, mediante ferramentas como a Análise do Ciclo de Vida (ACV), evitando o risco de greenwashing.
“Não basta cumprir questões pontuais de sustentabilidade, como medalhas de ouro reciclável, pódios de madeira certificada e comidas de produtores locais, se não soubermos o quanto isso representa no todo que um grande evento gera de impactos ambientais, sociais e econômicos”, afirma.
Fonte: Valor Econômico






