Para participantes de evento de 10 anos do GVAgro, Brasil pode produzir e recuperar solo e meio ambiente ao mesmo tempo
“A agricultura é a área inovadora do Brasil e pode alavancar o crescimento do país. Há possibilidades nas áreas de energia, agricultura sustentável e de baixo carbono, na modernização de pastagens. E temos uma onda de investimentos nessa direção”, disse o professor Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, durante o evento de comemoração dos 10 anos do Centro de Estudos em Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GVAgro), na última sexta-feira (18/11), na sede da FGV, em São Paulo.
Para os participantes do evento, que contou ainda com o secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, Arnaldo Jardim, o ex-ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, e o coordenador do GVAgro e também ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, essa inovação passa necessariamente pela agricultura de baixo carbono. Ao apresentar os trabalhos do GVAgro, Rodrigues deu destaque para o Observatório ABC. “Essa é uma parceria que temos com a Aliança para o Clima e o Uso da Terra (CLUA), voltada a engajar a sociedade na agricultura de baixo carbono, cujo foco é a implementação do Plano ABC”, disse, lembrando que, desde que foi criado, em 2014, o Observatório conta com 11 estudos publicados e quatro em andamento.
Arnaldo Jardim destacou o Código Florestal e a sua implantação como um diferencial da agricultura do país. Segundo o secretário, as quatro questões da agricultura paulista hoje são: conciliar agricultura com meio ambiente, o que está sendo feito com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o Programa de Regularização Ambiental (PRA), e o Plano ABC; a pesquisa em núcleos de inovação tecnológica; a prioridade ao pequeno agricultor, por meio do programa de microbacias; e a busca por uma alimentação saudável, a partir do controle de agroquímicos e da rastreabilidade. “Em São Paulo, estamos dando um passo a mais no Plano ABC, estabelecendo instrumentos de controle, desenvolvendo dispositivo para avaliar sistematicamente e mensurar sua aplicação, além de ampliar os recursos através do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap)”.
Um dos responsáveis pela criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Alison Paulinelli defendeu que o grande desafio para a segurança alimentar da humanidade é saber como cultivar em biomas tropicais sem transformar essas regiões em áreas degradadas e recuperar o que já está degradado, como o Cerrado brasileiro. Para o ex-ministro, esse processo já começou no Brasil, com a visão de manejo incorporada ao processo de revitalização e integração de processos produtivos. “Estamos transformando área degradada em produtiva por meio da integração lavoura-pecuária-floresta, que recupera o solo. Estamos aprendendo com a natureza, com a ajuda da tecnologia. Mas é preciso coragem para mudar no que se errou e inovar”, avaliou.
Agricultura sustentável na Amazônia
A realidade apontada por Paulinelli foi constada pelo estudo “Amazônia Legal: propostas para uma exploração agrícola sustentável”, lançado durante o evento. Segundo o coordenador do trabalho, o pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e Observatório ABC, Eduardo Assad, “analisamos mais de 700 municípios da Amazônia Legal e percebemos que não há solução para a região sem ser a integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas agroambientais”.
Segundo Assad, temos 74 milhões de hectares de área desmatada na Amazônia, uma área equivalente a de toda a agricultura do centro-sul do país. “Precisamos modificar e dar destinação a tudo isso, mas não com a agricultura tradicional, e sim com algo mais inteligente. Estados Unidos e Europa produzem seis meses por ano; no Brasil, usando a safra e a safrinha, mais pasto e floresta, temos 100% de tempo de produção. Nós dominados a tecnologia tropical e, agora, não precisamos inventar muita coisa, apenas dar escala ao que já está sendo feito”, disse.
O pesquisador lembra que o desmatamento teve uma grande redução no país entre 1990 e 2015, com um aumento de área colhida na Amazônia. “Isso acontece porque temos uma mudança rápida na pecuária, com jovens produtores que não se intitulam pecuaristas, mas bovinocultores, que criam boi e plantam capim”. Conforme Assad, a pecuária brasileira pode sequestrar carbono, porque o boi está em cima do pasto e pasto sequestra. Tudo depender do tipo de manejo.
Os dados levantados no estudo foram agregados em um sistema online, dinâmico, espacial e interativo de consulta de informações que está disponível no site do GVAgro. Esse sistema traz uma caracterização dos 772 municípios da Amazônia Legal considerando, sobretudo, o histórico do desmatamento em função do corte raso, além de aspectos edafoclimáticos, produção agropecuária, vulnerabilidade social e mapeamento do zoneamento ecológico econômico da região.
O estudo identificou 29 sistemas produtivos, nas seguintes modalidades na Amazônia Legal: pastos bem manejados, integração lavoura-pecuária (ILP), integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e sistemas agroflorestais. Os resultados indicam também que existem diversos arranjos para os sistemas produtivos integrados mapeados na Amazônia Legal, desde a simples consorciação entre gramíneas e leguminosas forrageiras para diminuir o uso de adubos nitrogenados até sistemas de produção mais complexos, integrados com espécies arbóreas nativas da região.
Segundo Assad, há 45 milhões de hectares passíveis de intervenção para implantação de agricultura de baixo carbono apenas no bioma Amazônia. “No entanto, estamos devolvendo recursos do Programa ABC e os estados da Amazônia são os que têm menos adesão ao financiamento, precisamos inverter isso”, diz. Para o pesquisador, toda essa área pode ser cultivada com desmatamento zero. “Acabar com desmatamento ilegal não deveria ser meta para o país, deveria ser cadeia”.
Fonte: Observatório ABC






