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Risco climático e ‘green bonds’

A maioria dos leitores deste jornal deve ter ficado encantado com o histórico Acordo de Paris, fechado no ano passado para combater as mudanças climáticas. Mas também devem ter se perguntado o que isso significa para eles – e como ajudar a tornar esta visão, realidade.

A transição para o baixo carbono é extremamente importante, não apenas para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas, mas, sobretudo, para a maneira de poupar e investir. Pois se quisermos cumprir o Acordo de Paris, as finanças – especialmente o financiamento privado – serão fundamentais para a transição para o baixo carbono. E isso afeta a todos nós, como cidadãos e como investidores individuais.

Grandes transições criam oportunidades e riscos igualmente grandes. As políticas de mitigação do clima criam oportunidades para o investimento em tecnologias, produtos e processos de baixo carbono, mas também tornam antieconômicos muitos ativos relacionados a combustíveis fósseis. Outro risco é atrasar a ação climática, o que aumentaria a probabilidade de uma transição econômica desordenada e com custos significativos. Para que o setor financeiro desempenhe seu devido papel, os investidores, grandes e pequenos, precisam lidar tanto com as oportunidades de investimento em baixo carbono, como com os riscos e os desafios de ficarem presos e perdendo com a antiga economia de alto carbono.

No lado das oportunidades, o financiamento verde está ganhando destaque. Em dezembro de 2015, mais de 400 investidores com US$ 24 trilhões em ativos fizeram um compromisso através da Plataforma de Investidores para Ações Climáticas de aumentar os investimentos resilientes ao clima e em baixo carbono.

Olhar para o mercado de títulos verdes (Green Bonds) nos dá uma boa ideia dessa dinâmica. As emissões de títulos verdes chegaram a US$ 42 bilhões em 2015, um recorde. Na Europa, foram US$ 18,4 bilhões. Sete novos países entraram na onda: Brasil, Dinamarca, Estônia, Hong Kong, Índia, Letônia e México. Este ano, a Apple emitiu US$ 1,5 bilhão em títulos verdes, a maior emissão até agora por uma empresa americana. O Banco Popular da China abriu o mercado de títulos verdes em janeiro e ele deve crescer até espantosos US$ 230 bilhões nos próximos cinco anos.

Os títulos verdes são exatamente como outros títulos, exceto pelo fato de que visam arrecadar recursos exclusivamente para investimentos verdes, muitas vezes de energias renováveis e projetos de eficiência energética. Outros tipos de projetos ambientais de baixo carbono – como transporte, água e resíduos – são financiados por uma parcela muito menor de títulos verdes e há muito espaço para crescer.

No entanto, embora os emissores possam voluntariamente certificar os seus títulos por meio dos Princípios dos Títulos Verdes, um dos maiores desafios é que ainda não há globalmente uma definição unificada do que conta como “verde”. Normas transparentes e claras poderiam proteger contra o “greenwashing”, facilitando para os investidores o reconhecimento e a credibilidade desses títulos e assegurando que os projetos subjacentes resultem de fato em investimentos que coloquem o crescimento econômico em um caminho para manter o aumento da temperatura global bem abaixo dos 2° C.

Mas já há bons começos: por exemplo, o Green Bond Index do Barclays-MSCI, lançado em novembro de 2014, e cujos critérios de elegibilidade incluem – e superam – os Princípios de Títulos Verdes. A S&P, por sua vez, tem dois índices de títulos verdes também.

E os riscos? Finanças verdes e riscos climáticos são os dois lados de uma mesma moeda. À medida que a regulamentação para mitigar a mudança do clima se torna mais rigorosa, os ativos de alto carbono ficam mais propensos a perder cada vez mais valor. Portanto, quanto maior a intensidade de carbono de um ativo ou carteira, mais os investidores, proprietários e gerentes devem medir, modelar e tratar os riscos que enfrentam.

Por isso, em maio de 2016, investidores com mais de US$ 10 trilhões em ativos endossaram resoluções de acionistas que convidam a ExxonMobil e a Chevron a realizar testes de estresse em suas estratégias de negócio contra um cenário no qual são tomadas ações climáticas para manter o aquecimento global abaixo dos 2° C. Embora ambas as medidas tenham falhado, cada uma foi apoiada por cerca de dois quintos dos acionistas.

Definições e padrões comuns de transparência para os riscos climáticos são também a chave para aumentar a confiança e a eficiência dos mercados e, desta forma, a estabilidade econômica. Vários países estão liderando o caminho. A França, por exemplo, introduziu a obrigatoriedade de divulgação de informações climáticas corporativas. O banco central chinês propôs a divulgação obrigatória de informações relacionadas ao clima como parte de uma série de outras reformas para ajudar a tornar seu sistema bancário mais verde.

Uma força-tarefa liderada pelo setor corporativo, criada no âmbito do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB), a pedido dos ministros de Finanças das nações do G-20, está elaborando recomendações para as medidas de divulgação dos riscos financeiros relacionados com o clima. O imprimatur do FSB e o compromisso pessoal de muitos especialistas do setor privado oferecem uma oportunidade única de se criar um roteiro para acertar a divulgação dos riscos climáticos e, com o tempo, estabelecer um quadro e padrões claros para todos.

O G-20, com a China e a Alemanha na presidência em 2016 e 2017, com certeza mostrará ambição nas reuniões de setembro relativas à agenda de 2017. Definições claras do que conta como verde, por um lado, e requisitos de transparência em matéria de risco de carbono, por outro lado, permitiriam decisões de investimento baseadas em informações transparentes e ajudariam a garantir uma transição eficiente e suave para o baixo carbono.

Caio Koch-Weser é presidente do Conselho da Fundação Europeia do Clima e membro da Comissão Mundial sobre a Economia e Clima.

Fonte: Valor Econômico

 

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