you're reading...

Em Português

Pressão por menor preço inibe avanço na cadeia produtiva

As empresas brasileiras têm grandes oportunidades para liderar nas tecnologias que aproveitam o potencial da natureza. “Há uma simbiose entre inovação e sustentabilidade”, diz Paulo Branco, coordenador do estudo “Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor”, realizado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVCes), com patrocínio da Citi Foundation.

Essa relação estreita se explica pela necessidade de reinventar os meios de produção e da criação de modelos de negócio que avaliam muito mais do que o preço final de bens e serviços. “O maior desafio é mudar a relação das grandes corporações com seus fornecedores”, afirma Branco. Na prática, o que ocorre há décadas é a pressão pelo menor preço. As grandes corporações exercem poder econômico nas cadeias produtivas, que buscam maior eficiência na redução de custos. “É difícil garantir atributos sustentáveis com contratos focados em preço. Tanto a inovação quanto a sustentabilidade requerem investimentos e impactam custos”, explica.

O estudo aponta para relacionamentos de parceria, com busca de desempenho e perseguição de atributos capazes de garantir a sustentabilidade dos negócios. “Nas contas das grandes empresas, começam a valer as pressões da regulamentação e da autorregulamentação, vindas do mercado. Desastres ambientais e uso de materiais poluentes também causam grandes danos à imagem”, comenta o pesquisador. Exemplos como o da fabricante de brinquedos Mattel – cujo parceiro chinês utilizou tinta com chumbo na produção – são emblemáticos e acendem o alarme dos executivos. “Ninguém quer correr riscos como esse.”

O maior desafio é mudar a relação das grandes corporações com seus fornecedores

De fato, a mentalidade dos dirigentes está mudando, embora o desdobramento nas empresas e nas cadeias produtivas ainda seja um desafio. Segundo estudo publicado pela Accenture, em 2010 – no qual a consultoria entrevistou 766 dirigentes de empresas de variados países e setores da economia -, 93% dos executivos apontou que as questões de sustentabilidade serão críticas para o sucesso futuro do negócio; 96% acreditam que esses pontos devem ser plenamente integrados à estratégia e operação da empresa; 72% citaram “marca, confiança e reputação” como fatores que impulsionam os projetos de sustentabilidade; e 88% dos entrevistados acreditam que a integração da sustentabilidade deva ser feita em sua cadeia de suprimentos.

O novo direcionamento empresarial avança e traz novos paradigmas para a pesquisa e desenvolvimento. A inovação – da mesma forma que a sustentabilidade – é tarefa que exige comprometimento entre fornecedores e clientes. É muito mais custoso e difícil inovar de forma isolada. “Assim como a sustentabilidade, as invenções e as inovações incrementais só se completam em cadeia”, explica Branco.

Ele alerta que as políticas públicas para promoção de inovação e sustentabilidade também devem avançar e, neste caso, o poder econômico pode ser benéfico. “Em média, entre 10% e 15% do Produto Interno Bruto (PIB) global está comprometido com compras públicas. Se essa fatia do mercado passar a exigir atributos sustentáveis nos produtos e serviços que adquire, teremos uma demanda que justifique investimentos e novas frentes de pesquisa e desenvolvimento”, comenta.

Outro ponto de oportunidade está nas políticas que regulamentam os impactos ambientais. “Muitas empresas encontraram nichos de mercado a partir da política de resíduos sólidos. Quando há obrigação para mitigar os efeitos da poluição, há demanda e, consequentemente, oferta.”

A escala, segundo Branco, ainda é impedimento para que muitas inovações cheguem ao mercado. “Produtos com tecnologia e atributos sustentáveis são mais caros. A economia verde ainda depende de quem está disposto a arcar com o ágio”, explica. A conta, no entanto, é feita de forma errada. Ao comprar um produto sem atributos sustentáveis, a sociedade paga um preço alto no final. “Sempre utilizo o caso da produção orgânica de alimentos. A agricultura tradicional é altamente subsidiada no Brasil, o que nos leva a uma diferença enorme de preços na prateleira. Mas se avaliarmos os impactos na natureza e na saúde da população, qual é o método de produção mais caro?”, questiona. O resultado é que ainda oferecemos mais vantagens econômicas a atividades poluidoras.

Mas o avanço da sustentabilidade – que dependerá da criação de novos produtos e modelos de negócios – exigirá ainda um novo modelo de operação dos departamentos de compras e uma gestão mais apurada da cadeia de fornecimento por parte das grandes corporações. E a estratégia passa por uma visão integrada do ciclo de vida do produto, no qual a sustentabilidade está inserida desde a etapa de pesquisa e desenvolvimento até as atividades pós-consumo. “Este complexo ciclo exigirá melhores condições para financiar projetos em empresas de menor porte, que precisam de estruturas capazes de suportar a demanda das grandes corporações.”

Nesse sentido, a convergência entre parcerias empresariais e estímulos públicos será fundamental para alicerçar os projetos. “As empresas menores têm dificuldades para conseguir financiamento. Por isso, os instrumentos de fomento à inovação e sustentabilidade precisam avançar”, comenta. Entre as cadeias produtivas que sofrem atualmente com a falta de integração está a de óleo e gás. “O pré-sal só é viável com uma rede de empresas capaz de produzir tecnologia e mitigar os riscos ambientais. Se conseguirmos isso, venderemos sistemas de exploração em águas profundas para todo o mundo.”

Fonte: Valor Econômico

Comentários

Nenhum comentários.

Comentar

Newsletter

Banners



Outros Sites

Parceiros